domingo, 27 de outubro de 2013

puídos: coração

 E como tua, lá vou eu de novo. Pronta pelo avesso, como se quisesse me livrar de algo que em mim não tem mais cabimento, nem medida. Tudo está fora, tudo só se remexe por dentro. Chegas fazendo barulho, sobes, em vez de descer as escadas, no descompasso do que alguém um dia ousou chamar de samba, tua batida só encontra ritmo na pele distendida e áspera que recobre o que pensei um dia ser meu corpo. Corpo às avessas, corpo que incorpora e que fica igual de novo. Igual de novo? Coração, coração. Tu és o puto que me bates, que me lanhas, que sanhas a esse estado de coisas. Eu que prefiro doer a viver pedinte, eu que prefiro o espaço do sono ao momento da contagem pela burocracia da espera. Tu és o puto que manda em mim...
 Não sei como pode haver amor num dia indeciso entre frio e calor, no qual as horas deixaram de cessar a vontade feérica de amar ao contrário de mim. Sou tua mulherzinha, a puta que põe tudo à mesa: papéis avulsos, páginas manchadas de chico, meu gozo medido pelo o que tu esperas de mim. Sempre esperam de mim? Sempre esperam em mim. Como ser tantos num invólucro único, nada substancial. E dirias, com teu velho ar de deboche, nada passa de substantivo! E na aula fui sendo obrigada a acreditar que o essencial é o verbo: sereno! Nunca pude lidar com a indecisão das cores, com a sensação daquilo para o qual ainda não se tem nome!
 Meu nome é agora! Pedra? Nem mesmo fumo crack. Perdoai!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

C.o.R.(fort)e.d.o.r

E o que tinha passagem pelo corredor. Era a medida necessária para o fingimento do que ainda poderia ser. Atravessou, por isso, com pressa, mas com tempo necessário de poder olhar cada vão de tinta e de espaço deixado nas paredes por acaso, deixados ali para que seu coração tivesse o mínimo espaço de respirar. Às vezes, sentimos medo por não sermos do tamanho exato da vontade do outro. Às vezes, o outro extrapola nossa medida, e deixa um sorriso como marca indelével por semanas! Tudo é breve e infinito. No espaço de cada hora, sentimos falta de ficar parado, olhando a chuva desenhar uma dança secreta na janela nossa! Pensamos, com isso, a leveza de ser elegante e a espera pelo que pode chegar apenas de hora em hora. Não sei mesmo o que tenho no corpo assim que acabo de fazer amor no chão. Deitados, sem respirar, não me é permitido nem o espaço do corpo que se contrai dentro de mim. Tudo segue em frente. Nada fica para o dia seguinte. Nem mesmo o corpo dele lateja palavras suficientes para me fazer crer na experiência de risco e medo a que nos damos na clausura de nossas carências. Ele me quer? Ainda não sei. Sempre vasculho tudo, forjando motivos para me sentir mais humano, mais próximo do erro com que nomeei minha vida daquele dia em diante. Por que títulos ficam sempre centralizados? Não quero que minhas palavras gravitem em torno de um nome que dou por fim. Quero o espaço de ida e de retorno. Quero o vácuo que só ele pode permitir ao passar. Ao corredor de sentidos e sensações! Nem tinta, nem a triste aranha que dá sentido à sua existência mínima, nem as minúsculas moléculas dispersas no ar, cortadas pelo corte da pressa de passar a sós. Minha autoausência em meu redor. Por isso, medir não é estender, tampouco confluir nesse espaço de nada! Por que me fiz assim? Nada mais pode reverter o que corre corredor adentro de minha veias! Tinta? – Como um funil, meu bem – pensou alto, sem se dar conta de sua voz rateava sílabas inaudíveis aos ouvidos mais sutis... – Como um funil, meu bem! Como um funil...deixe tudo como está. Mexa apenas o que você consegue guardar por dentro de suas memórias. As palavras não podem fazer de conta que não existimos. Elas ignoram minha passagem, mas eu estou aqui, de corpo, fazendo presença nesse meio. Rangendo dentes como um cão a ponto de brigar pela comida mexida por alheio. Rangendo sonoridades do que o corpo físico e imaterial da linguagem permite-me expressa! Deixo falar mais do que a fala de um Mago. Deixo falar o que me aprisiona. O que pelo corredor ele não pode levar!